Capítulo 2 - Talvez presa
O Lobo estava parado na porta, como se refletisse quais ações deveria tomar no momento, o ambiente foi tomado por uma indescritível tensão, e mesmo quando decidiu se aproximar do cordeiro ferido com calculada cautela, não foi suficiente para acalmar o nervosismo dele. Sweven se encolheu, tremendo e suando frio, o Cordeiro não esperava que ele fosse ter uma reação de medo tão extrema como aquela, e segurou a mão dele, que apertou de volta com o triplo da força, a cada segundo sentia seu coração tremer de pena por Sweven demonstrar um forte trauma.
— Não nos devore... Por favor... — Ele choramingou, segurando o choro evidente, seus olhos tomados por pavor se voltaram para o Cordeiro, em busca de alguma reação por parte dele, e se surpreendeu ao ver apenas preocupação com seu estado emocional.
Onde estava o medo dele?
— Eu não vou te devorar. — Ele parou de andar, ainda próximo a cama, examinava a linguagem corporal do hóspede e decidiu não ousar se aproximar mais. — Eu não gosto de comer cordeiros, pois eu cuido de um.
Lobo gesticulou apontando sutilmente para o Cordeiro, seus movimentos foram fluidos e não eram bruscos ou que fizessem o ferido saltar da cama de medo e fugir, era até como se aquele Lobo conhecesse bem reações de seres assustados como ele, e isso fez o hóspede ter calafrios, sentia que cada movimento do Lobo era calculado. O Cordeiro assentiu freneticamente e deu um leve sorriso, na intenção de tranquilizar Sweven. Contudo, não foi o suficiente para acalmar Sweven, que estremeceu no momento em que encarou os olhos de Lobo. Sua respiração começava a desregular cada vez mais, até o Cordeiro chamar a sua atenção.
— Sim, ele jamais te machucaria, foi o Lobo quem cuidou do seu braço. — Sweven olhou para o seu braço enfaixado e depois para o Lobo, que por mais que estivesse parado, o olhava de uma maneira que causava arrepios.
— I-Impossível... — Ao sentir o olhar de curiosidade sobre si vindo de ambos, tanto Cordeiro, quanto o Lobo, sentiu uma súbita coragem em falar contra ele. — Lobos não resistem ao cheiro de sangue, aposto que ele ficou lambendo os beiços enquanto enfaixava o meu braço! Você se segurou para não dar uma mordidinha, não é?
— Sweven, não...
— Enxergue a realidade na sua frente! Como um lobo pode querer cuidar de dois cordeiros sem qualquer tipo de intenção maliciosa? Me responde! — exclamou com a respiração exaltada.
— Você parece confiante de sua convicção, então por que não conversamos de maneira lógica? — O ferido inclinou a cabeça levemente para o lado em curiosidade. — Quando eu o encontrei, você estava inconsciente e vulnerável, seu braço estava ensanguentado, e tudo que eu fiz foi cuidar de você e seus ferimentos, se eu realmente fosse um predador faminto, você não estaria aqui agora.
— Mas... — Ele próprio se interrompeu de falar enquanto pensava em outro argumento plausível.
— Agora me responda também por que eu iria te salvar, cuidar de suas feridas, para devorar vocês dois depois logo em seguida? Você sabe muito bem que isso seria desperdício de tempo para feras. — Sweven vacilou em responder, não sabia realmente que tipo de motivos ele poderia ter para tudo aquilo. — Além do mais, se duvida de minha índole, basta perguntar para o Cordeiro ao seu lado se alguma vez já o feri quando ele me apresentou qualquer machucado que saísse sangue.
Cordeiro imediatamente abriu um sorriso para Sweven, e balançou sua cabeça em concordância com Lobo.
— Ele tem razão, eu já me machuquei muitas vezes, mas o Lobo sempre cuidou de mim e nunca nem mesmo demonstrou que queria me atacar.
— Mas como é possível? — Seus olhos estavam arregalados, e olhou hesitante para o Lobo, que ainda o observava profundamente.
— Cuidar de alguém mais frágil quando sabe de sua própria natureza exige certo controle sobre si mesmo — explicou o Lobo, a postura ainda impecável.
O Cordeiro olhou para Sweven, esperando sua reação, mas ele parecia paralisado, demonstrando nitidamente a falta de interesse em continuar conversando sobre, provavelmente ainda estava atônito após o ser que ele possuía tanto medo apresentar argumentos tão plausíveis, mas ao mesmo tempo que o Cordeiro percebia que ele estava daquela maneira, não deixou de sentir uma certa alegria ao ver que pelo menos ele já não parecia estar prestes a ter alguma crise como alguns segundos atrás. O silêncio predominou o ambiente por um tempo que ele não sabia determinar, segundos ou minutos, de qualquer forma parecia que o tempo passava devagar
— E o jantar? — perguntou o Cordeiro, uma tentativa desesperada em quebrar aquele clima desconfortável.
— Está pronto. — Seu olhar se direcionou mais uma vez para Sweven, seu olhar profundo sobre o hóspede o fez se mexer na cama desconfortável e desviar o olhar. — Vá comer em seu tempo, é ensopado de legumes.
Lobo se retirou com cautela depois de anunciar aquilo, e fechou a porta dando privacidade para ambos. Após ele sair, Sweven suspirou aliviado, e então se virou para o Cordeiro e segurou seu ombro com a mão trêmula.
— Precisamos fugir imediatamente desse lugar! — O Cordeiro que sorria, fez uma expressão de desentendido e arqueou uma sobrancelha.
— Mas o Lobo não acabou de falar que não iria te devorar?
— Qual a alegria de comer pequenos cordeirinhos quando ele pode criar um até que estejam gordos e ótimos para abate? Aposto que para ele deve ser mais suculento.
— Não fale assim! Você nem o conhece.
— E você o conhece por acaso?
O Cordeiro franziu as sobrancelhas e fez beicinho, se afastando de seu amigo e olhando para um ponto vazio no quarto. Sweven analisou a postura que ele havia tomado, e suspirou mais uma vez exausto.
— Ele poderia ter me devorado quando eu era um filhotinho, e teria sido fácil, mas não fez... — murmurou Cordeiro, ainda sem olhar para Sweven. — Dê pelo menos uma chance para ele.
— Duas semanas. — O Cordeiro olhou para Sweven novamente levemente surpreso, e seu amigo evitava olhar para ele. — Se ele parecer suspeito nessas duas semanas, eu vou fugir.
— Você irá amar o Lobo tanto quanto eu! — O jovem exclamou abrindo um largo sorriso e e abriu os braços, antes de dar um forte abraço em Sweven.
O hóspede corou e arregalou os olhos com a ação repentina, e precisou logo em seguida dar alguns tapinhas nas costas de Cordeiro para que não machucasse seu braço ainda dolorido. Depois de concordarem ambos com aquele acordo, Cordeiro auxiliou Sweven a se levantar da cama, e ficou feliz que ele parecia bem, o guiando para sala de jantar.
Ao abrir a porta, sentiu seu amigo segurar firme sua mão, e compreendeu o motivo. Lobo havia terminado de arrumar a mesa, os pratos postos já exalavam o cheiro e a fumaça fumegante do ensopado, não apenas isso como ele finalmente colocava seu próprio prato na mesa, e isso fez Sweven arregalar os olhos.
— Carne? — O garoto quase gaguejou observando o Lobo se sentar calmamente, e se recusou a se sentar também para comer.
— Eu como apenas peixe.
O olhar de Sweven caiu sobre o prato do Lobo, e engoliu em seco. Realmente tudo que havia ali era peixe cozido, o cheiro não mentia, não possuía indicio algum de ser alguma carne de outro animal ou cordeiro. Enquanto raciocinava, Cordeiro puxou fracamente sua mão e olhou para ele confiante pela resposta do Lobo.
— Vamos comer antes que esfrie. — Ele se afastou para se sentar à mesa, e Sweven fez o mesmo depois, por mais relutante que estivesse.
Quando se sentou, estremeceu ao notar que o olhar do Lobo estava sobre ele, embora não conseguisse enxergar fome ou ferocidade em seus olhos, ainda sentia um nítido desconforto. Tentou ignorar se concentrando na comida, e para sua surpresa a aparência do ensopado lhe abriu apetite, confirmando quando sua barriga roncou. O Cordeiro o olhou surpreso, entretanto deu uma risadinha logo em seguida e começou a comer primeiro. Pensava que se fizesse isso, o seu novo amigo não sentiria vergonha de comer. Depois olhou para o Lobo logo em seguida, afim de ver sua reação, e notou como ele parecia atento a forma que hóspede analisava a comida, algo que fez o Cordeiro rir mais um pouco.
— Lobo, ele pode se sentir envergonhado sendo encarado dessa forma. — Isso fez a atenção do Lobo sobre Sweven dissipar, e ele voltou seus olhos para o Cordeiro.
— Tem razão, me perdoe. — Ele deixou de lado aquilo, e também começou a se alimentar.
Sweven deixou de olhar para comida e passou a observar os dois, comendo uma refeição normalmente e de maneira tranquila, não se atreveu a olhar muito para o Lobo pois não gostava de quando ele revelava suas presas toda vez que levava peixe a sua boca. Aquela cena desconstruía diversos conceitos quais estava acostumado e achou que jamais veria algo semelhante aquilo, um lobo se alimentando de algo que não eram ovelhas nem cordeiros, de maneira calma e controlada, e um cordeiro que estava totalmente a vontade com a presença de um lobo. Apenas de sentir o olhar do lobo, não conseguia se sentir plenamente tranquilo. Contudo, mesmo com o olhar estranho que tinha recebido estava exausto demais, e decidiu se alimentar de uma vez.
Para sua surpresa, quando levou um pouco de ensopado a sua boca, sentiu que havia experimentado uma das melhores comidas de sua via, e começou a comer de maneira mais desesperada. Não sabia se era por sentir fome ou se era por ser realmente delicioso, mas devorava tudo que tinha no prato com velocidade surpreendente. Ele comia tão rápido que nem tinha percebido o olhar do Lobo sobre ele novamente.
— A comida é de seu agrado? — Sweven engasgou na comida com a pergunta repentina do Lobo.
Engoliu a comida e olhou envergonhado para o Lobo, que o encarava com pontada de curiosidade no olhar, ainda se perguntava como Cordeiro poderia sentir tanto conforto quando recebia aquele olhar sobre si. Olhou para seu próprio prato percebendo que estava quase acabando o ensopado e se sentiu ainda mais envergonhado.
— É aceitável... — murmurou olhando para baixo.
— Deixe disso, você estava quase comendo o prato! — exclamou Cordeiro com sorriso no rosto. — Você fez a mesma coisa com a torta, e os dois foram feitos pelo Lobo.
— Há algum tipo de comida que você possui preferência, Sweven? — Lobo questionou e por um segundo, Sweven observou sua face, pegando momento exato em que ele limpava seus lábios com guardanapo.
— Hmm... — Ele refletiu sobre aquilo, e ao olhar para o Cordeiro viu os olhos cheios de expectativa. — Talvez sopa, nunca pensei muito sobre isso.
— Como nunca pensou muito sobre isso? — O Cordeiro demonstrou nítida surpresa com aquela revelação, seus olhos estavam arregalados. — A minha é torta de frutas e a do Lobo... Qual era a sua mesmo, Lobo?
— Peixe defumado — ele respondeu calmamente.
— Viu!
— Nem todos tem oportunidades de comer tortinhas como você, pequeno. — O Lobo chamou a atenção de uma forma gentil, e o Cordeiro corou levemente.
— Desculpa, Sweven...
Antes que o silêncio dominasse o lugar, o Lobo se levantou de seu lugar e retirou os pratos já vazios da mesa, o Cordeiro observou as ações dele e abriu um sorriso, se retirando da mesa e puxando a mão livre de seu amigo para sofá perto da lareira. A chuva do lado de fora caía ainda de maneira contínua e sem o menor sinal de diminuir ou cessar, criando uma espécie de clima confortável na cabana. O calor da lareira contribuía com esse sentimento, e o Cordeiro parecia empolgado.
— O que está havendo? — Sweven perguntou franzindo o cenho.
— Quando o clima está assim, o Lobo conta fábulas pra mim.
— Fábulas?
— São histórias que servem pra ensinar a gente. — Sweven pareceu ficar pensativo sobre aquilo, porém saiu de seus pensamentos quando o Lobo havia retornado e se sentado em uma poltrona próxima da lareira. — Sua família contava fábulas?
— Só histórias de cabritinhos ou ovelhas...
— Lobo, você conhece alguma fábula sobre cordeirinhos?
— É claro que conheço, porém o final pode ser triste para você. — O Cordeiro pareceu analisar o que o Lobo havia dito, e depois olhou para ele com um pequeno sorriso.
— Tudo bem, histórias tristes nesse tempo são aceitáveis.
O Lobo riu um pouco, e depois se ajeitou na poltrona, pigarreou e começou a falar.
— Era uma vez um cordeiro que bebia água de um ribeiro, que ficava em um terreno inclinado. Certo dia, o cordeiro levantou sua cabeça e viu um lobo também bebendo água...
— O lobo estava com fome? — perguntou o pequeno surpreso, enquanto Sweven escutava atento ao que Lobo dizia.
— Muita. Ele estava faminto. — A voz do Lobo era de alguma forma hipnótica, e combinava com o clima. — E quando ele avistou o cordeiro viu um pretexto perfeito para saciar sua fome, e disse: "Como é que tem coragem de sujar a água que eu bebo?". Com medo, o cordeiro respondeu: "Bebo aqui, uns vinte passos mais abaixo, é impossível que isso aconteça, senhor."
— Faz sentido, ele o deixou em paz? — Sweven notava a forma que o Cordeiro parecia envolvido na história.
—Não, ele continuou a buscar desculpas, e acusou o cordeiro de ter falado mal dele no ano passado.
— Que desonesto!
— Exato. O cordeiro então falou: "Isso também é impossível, senhor. Eu ainda não tinha nascido no ano passado."
— Tão jovem... — Sweven murmurou pressentindo o final da história.
— Então o lobo precisou pensar no que falar, e disse: "Se não foi você, foi seu irmão." — Ele fez uma pausa, observando a face de ansiedade do Cordeiro e a desconfiança de Sweven. — E o cordeiro lhe explicou que era filho único. Isso fez o lobo ficar cansado de argumentar com ele, e por fim falou: "Alguém que você conhece, algum outro cordeiro, um pastor ou um dos cães que cuidam do rebanho, e é preciso que eu me vingue." E saltou sobre o cordeiro.
— Ele... morreu? — O Cordeiro perguntou em tom de horror, e Sweven observou seu amigo com pena.
— Infelizmente. — O som do crepitar da lareira aumentou, e Cordeiro suspirou arrependido de querer uma história triste. — A moral é que às vezes argumentar com quem já está decidido a te machucar é inútil, independente do que diga.
— Ele devia ter fugido, quem tenta dialogar com seu predador — Sweven falou e observou a reação do Lobo, que para sua surpresa assentiu em concordância.
— Que terrível, isso não foi justo... — O Cordeiro ainda se lamentava, se encolhendo um pouco.
— O mundo é injusto com os mais frágeis. — Sweven iria adicionar mais, porém o Lobo voltou a falar novamente. — É por isso que não devem sair sozinhos, enquanto estiverem perto de mim poderei protege-los.
Ao contrário de Sweven, que olhava com suspeita para o Lobo depois dessa frase, o Cordeiro abriu um sorriso e assentiu com a cabeça. Ele abriu a boca para falar mais uma coisa, porém se surpreendeu quando Sweven se levantou do sofá.
— Estou com sono. — Foi tudo que ele disse antes de se retirar dali e voltar para o quarto que estava.
O Cordeiro não pôde deixar de se preocupar com seu amigo, e suspirou. Quando ouviu o Lobo se ajeitar novamente na poltrona como se estivesse se preparando para ler, se lembrou de uma dúvida que possuía desde que Sweven tinha acabado de acordar.
— Lobo, por que eu me chamo Cordeiro? — O Lobo olhou surpreso para o Cordeiro, seus olhos levemente arregalados. — Nosso hospéde se chama Sweven, e eu sou o Cordeiro.
— Quando comecei a cuidar de você não achei que um nome fosse ser tão importante. — O pequeno inclinou a cabeça para o lado. — Você sabe que ainda possuo alguns hábitos de lupinos, não?
— Sim, é verdade. — O Cordeiro riu relembrando deles. — Diferente de hoje, às vezes você lambe seus beiços quando termina de comer e depois lembra que devia limpar com guardanapo.
— Além desse, pequeno, lobos também não possuem costume de nomear uns aos outros, pois nós reconhecemos por cheiros, sons e instintos. — O Cordeiro exclamou admirado com a nova informação que havia recebido. — Então sou péssimo com nomes, e passei a te chamar apenas pelo que você é... Mas se for de sua vontade, você também pode ter um nome.
— Eu posso escolher? — O Lobo abriu um sorriso gentil e assentiu em resposta. — Mas eu não conheço muito outros nomes, e já sou bem acostumado com meu nome.
— Vejo que ficará à sua escolha — o lobo comentou, se levantando da poltrona por fim. — E deveria ir dormir também, já está ficando tarde.
— Eu vou dormir com você? Já que o braço do Sweven ainda não melhorou.
— Ele se sentirá mais à vontade com sua presença, e sua cama tem espaço suficiente. — O Cordeiro se levantou do sofá também, ficando ao lado do Lobo e assentindo.
— Mal vejo a hora de poder brincar com ele!
Continua...

Comentários
Postar um comentário