Capítulo 1 - Hóspede

 



O dia estava propenso para chuva, mas o Lobo e o Cordeiro passeavam pacificamente por entre as árvores da floresta, ambos carregando uma cesta feita especificamente para colherem quaisquer tipos de frutas silvestres que encontrassem. O Cordeiro, cantarolando uma canção, saltitou em direção a um arbusto, se abaixando ansioso para pegar grande quantidade de framboesas que cresciam de maneira abundante, entretanto sendo cuidadoso para não se espetar. O Lobo parou de andar para observar o pequeno Cordeiro colhendo sorridente frutas silvestres, se atentando a cada movimento dele como se o estivesse analisando, até por fim decidir se aproximar lentamente.

Contemplou a cesta se enchendo de tantas framboesas e mirtilos, e sorriu, o Cordeiro ao sentir a presença do Lobo se virou e o viu sorrir, e sorriu de volta para ele, agindo de maneira alheia frente ao sorriso que revelava as presas afiadas daquele que o acompanhava.

— Para que tantas frutinhas como essas, pequeno? — Sua voz era profunda e melodiosa, e a forma que chamava o Cordeiro de pequeno era quase como se fosse carícia em sua cabeça.

— Para que você faça milhares de tortas para mim! — exclamou comendo algumas frutinhas. — Ou para você.

— Você sabe que lobos não gostam de comer frutinhas. — O Cordeiro inclinou a cabeça como se não entendesse e pegou a cesta, desistindo de atacar o arbusto, e ambos voltaram a caminhar lado a lado.

— Por que lobos não gostam de frutinhas? Eu me lembro que você já comeu.

— Sim, eu comi uma vez para testar se o sabor me agradava, entretanto não era tão saboroso quanto o que eu costumo comer.

— Deve ser tão triste não gostar de frutinhas, você faz uma torta incrível, mas não pode degustar... 

— Eu não me entristeço com isso, se for para lhe alimentar me alegro em fazer torta para você. 

O Cordeiro iria falar mais uma coisa, porém o Lobo parou subitamente, cheirando o ar e suas orelhas se mexendo de acordo com o que escutava, antes de olhar para o Cordeiro e lhe estender a mão, o pequeno aceitou sem muita relutância, e como sempre, o Lobo tomou o devido cuidado para não fazer algum tipo de ferida na pele da frágil criatura devido as suas afiadas garras.

Assim que eles chegaram na cabana que moravam, começou a chover de forma contínua e pesada, o Cordeiro foi para seus quarto desenhar enquanto o Lobo começava a preparar a torta. Ambos moravam juntos desde que o Cordeiro se lembrava, o Lobo e ele nunca foram além dos limites da floresta, e também ele não possuía muito ânimo para fazer isso, apenas de escutar o Lobo contar que os outros lobos não eram bondosos como ele e sim maldosos, desistia de ver o que o mundo tinha a oferecer, ele só sabia o pouco que o Lobo contava, que a maioria dos cordeiros temiam lobos, pois eles eram assustadores e horríveis predadores, embora ele não compreendesse o porquê, não achava o Lobo assustador.

Mesmo que não soubesse sobre o mundo ser um lugar perigoso cheio de feras, nunca teria vontade de sair de lá, morava em uma cabana confortável e o Lobo cuidava dele, sempre comia comidas quentinhas e de vez em quando saía para passear com o Lobo, tinha praticamente tudo ali, ficava feliz apenas de saber que nunca precisaria se preocupar com nada, apenas a roupa que o Lobo perguntasse que ele queria. E naquele momento estava deitado em sua cama, de vez em quando apertando levemente sua lã macia e branca, até sentir o cheiro de torta preencher a cabana, ele se levantou e saiu se esgueirando silenciosamente, devido as orelhas incríveis do Lobo era sempre difícil pegar ele desprevenido, mas naquele momento, ele nem tinha se dado conta que o Cordeiro saiu do quarto, estava de costas para o quarto dele, lavando alguma coisa na pia.

Estava com a postura reta como sempre, e sua aparência estava impecável, só mudando que as mangas de sua camisa estavam arregaçadas para que ele não as sujasse, e quando estava prestes a gritar "Buh", o Lobo parou subitamente mais uma vez, assim como havia feito na floresta. Suas orelhas se mexerem, e ele ergueu a cabeça como se tentasse se concentrar no som, olhou de soslaio para Cordeiro, e depois pela janela para o lado de fora, seus olhos amarelos brilhavam uma curiosidade que Cordeiro havia visto poucas vezes.

— Estou escutando alguém reproduzir balidos iguais aos seus, pequeno — explicou, e se aproximou cautelosamente da porta.

— Há algum cordeiro perdido na floresta? Ele deve estar morrendo de frio. — Apenas de imaginar se encolheu, passando a mão sobre os braços como forma de se esquentar.

— Não saia daqui, vou averiguar. — Ele abriu a porta, decidido a sair, mas foi impedido com o pequeno se agarrando ao seu rabo.

— Vamos juntos! Eu pego o guarda-chuva... Se for mesmo outro cordeiro de fora ele vai possuir medo de você.

O Lobo pareceu refletir nas palavras do pequeno, e com um suspiro assentiu. 

Logo do lado de fora, o Cordeiro se encolhia contra Lobo, se agarrando trêmulo no casaco de seu protetor, ele lutava para carregar de melhor forma o farol, não queria dar mais problemas ao Lobo que já carregava o guarda-chuva e tentava escutar atentamente de onde estava vindo som de balidos. Eles andaram pelo barro em busca de qualquer sinal de vida, o Cordeiro já estava pensando em insistir para voltarem para casa e procurarem de manhã, estava chovendo tanto que era quase impossível escutar barulhos de outro cordeiro, era isso que ele pensava, até escutar fracos balidos.

Sabia que o Lobo havia escutado também, pois apertou o passo, mas queria se certificar de que o outro estava bem e correu na frente, se arrependeu um pouco quando escutou o Lobo o chamar, provavelmente de preocupação, mas isso se esvaziou de sua cabeça ao ver outro cordeiro caído no chão, fazendo sons inaudíveis. O outro estava com o braço ensanguentado, sua lã suja de barro e mal conseguia manter os olhos abertos, o Lobo chegou depois do Cordeiro em questão de segundos.

— Nunca mais deve ir na frente sem mim, ouviu, pequeno? As vezes, lobos gostam de se disfarçar de cordeiros. — Observar o Lobo parecer genuinamente preocupado, ainda mais a forma que ele observava aflito Cordeiro, foi algo inusitado para o mesmo.

Ambos olharam para o cordeiro ferido no chão, e o Lobo se aproximou tentando cheirar para conferir a situação dele ou conseguir informações, mas então se afastou como se refletisse sobre quais ações tomar e enfim se decidiu ao se agachar e pegar o ferido no colo.

— Vamos voltar para nosso lar e cuidar dele — instruiu, sempre com a voz calma e serena, e Cordeiro se alegrou em ver que o Lobo iria cuidar de outro semelhante a ele.

Estavam começando a andar de volta para casa, até o Cordeiro olhar apreensivo para o Lobo ao seu lado, que estava com a pelagem negra molhada, assim como a lã do ferido estava encharcada, e pensou sobre o que ele havia dito.

— Lobo, por que os outros lobos se disfarçam com pele de cordeiro? 

— Eles também se disfarçam com pele de ovelha.

— Mas por quê?

Por um instante tudo que escutou foi o som da forte chuva e a respiração fraca do ferido.

— Alguns são cruéis e se disfarçam para atrair os mais frágeis como você, os enganam e manipulam, e quando menos se espera... Eles o devoram até que não reste mais nada que possam consumir. — Ele estremeceu ao imaginar se encontrasse um lobo em pele de ovelha, o enganando antes de cravar as presas em seu pescoço. — Por isso, nunca mais faça nada precipitado novamente, pequeno. 

  ⟡ ⟢ 🕯︎ 𝐭𝐡𝐞 𝐞𝐲𝐞𝐬 𝐧𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐬𝐥𝐞𝐞𝐩 ⟢ ⟡

O hóspede ferido ainda não havia acordado, porém agora estava devidamente bem cuidado. O Cordeiro observou o Lobo cuidar dos ferimentos que o hóspede tinha e enfaixar o seu braço, soube que ele estava com um braço quebrado, mas o Lobo tranquilizou de que o ferido iria melhorar em breve e bastava ser tratado frequentemente que nada de sério aconteceria. No momento, o Cordeiro estava sentado em uma cadeira próxima a cama que o hóspede estava deitado adormecido, comia um pedaço da torta e estava coberto por um cobertor que o Lobo insistiu em colocar nele, por ser ainda pequeno e a cadeira não ser especificamente para ele, suas pernas balançavam suspensas no ar.

— Onde será que está os pais dele? — Cordeiro questionou, levando uma colher caprichada de torta a boca.

— Eu não sei, não consegui descobrir muita coisa quando o farejei, a chuva lavou ele completamente — O Lobo estava em pé ao lado do Cordeiro e também próximo a cama analisando o hóspede, e se inclinou sobre ele mais uma vez, farejando-o. — Nada.

— Se pelo menos ele pudesse acordar e nos contar, eu iria dividir um pedaço de torta com ele, você acha que ele gostaria?

— Acho que se você oferecer, ele vá ficar tentado em aceitar.

— Espere, e se você me ensinar a fazer comidas tão gostosas quanto as suas? Então poderei cozinhar para alguém.

Lobo riu um pouco, e acariciou o topo da cabeça do Cordeiro, massageando a lã como se a maciez fosse viciante, e o pequeno apenas fechou os olhos sorrindo com o carinho.

— Não se empolgue tanto, não sabemos se os pais dele estão procurando.

— Mas aqui é tão legal...

A mão do Lobo se afastou da cabeça do pequeno e ele segurou gentilmente o ombro dele, fazendo a atenção do Cordeiro desviar do hóspede para seu protetor, que agora estava novamente com um semblante preocupado.

— Agora devemos nos manter mais atentos do que nunca.

— Por quê? Alguém malvado está por aí?

— Não sabemos como nosso hóspede conseguiu essas feridas, mas se foi feita por alguém de fora, há chances de ser...

— Um lobo — Cordeiro concluiu e quando Lobo concordou, se encolheu um pouco aterrorizado, olhou mais uma vez para o hóspede deitado descansando e se perguntou se ele havia sofrido alguma perseguição ou algo assim. — Pobrezinho.

— Não podemos concluir nada, porém não abaixe a sua guarda.

— Não vou, mas eu confio que se algum lobo malvado vier aqui você vai nos proteger.

Ele afastou-se do pequeno e andou em direção a porta, antes de olhar uma última vez para os dois cordeiros e falar:

— A chuva ainda não diminuiu, então vou começar a preparar o jantar.

— Sim, senhor! — Ele já podia imaginar o Lobo cozinhando ensopado de legumes e lambeu os lábios.

Assim que o Lobo saiu, o Cordeiro ficou ansioso se imaginando como responsável em cuidar do outro que estava ferido, e ao se virar ficou surpreso ao ver que o mesmo já estava abrindo os olhos, ficou dividido se deveria correr e avisar o Lobo para ele tomar as medidas necessárias ou não, e quando ia se levantar o outro cordeiro emitiu sons estranhos, ele parecia concentrado no resto de torta de Cordeiro.

— Isso... É por acaso... Uma torta de framboesa? — Ele estava com a voz rouca, e apontou lentamente, como se não acreditasse no que estava vendo.

— A melhor! — Cordeiro podia ver a forma que o hóspede encarava o doce com tanto desejo, e estendeu uma colher cheia em direção a boca, se levantando da cadeira e inclinando-se sobre a cama.

O hóspede o olhou atordoado, mas abriu a boca mesmo assim aceitando a torta, e quando finalmente comeu, lágrimas começaram a despender de seus olhos, ele pediu outra colherada, e depois outra, até a torta do pequeno finalmente acabar, e ele nunca tinha visto aquilo, não a parte de devorar a torta com tanta saciedade, mas sim chorar apenas com um mísero pedaço em sua boca, mais uma vez olhou para a porta pensando em chamar o Lobo, teve medo da torta causar algum tipo de sintoma de doença no outro, já que o fez chorar.

— Eu não como tortas há anos. — Aquilo parecia muito irreal para o Cordeiro, como alguém podia viver por anos sem comer algo tão suculento assim? Seria porquê aquele cordeiro não possuía mãe ou pai para cozinhar? Eram tantas perguntas em sua cabeça. — Onde estou? Quem é você? E... Quanto tempo eu dormi?

— Não precisa se preocupar, você está seguro na nossa cabana, e mal dormiu direito depois que veio para cá e foi tratado. — Essa era a parte qual estava esperando, conhecer aquele que era tão semelhante a ele. — Eu sou o Cordeiro.

— Eu sei qual animal você é, o seu nome eu quero dizer.

— Cordeiro!

— Seu nome é Cordeiro? — ele indagou descrente e viu Cordeiro assentir animado. — Não acho que isso é um nome muito bom.

— O seu também é Cordeiro? — questionou curioso, já que o hóspede parecia chocado com a informação.

— Claro que não, eu me chamo Sweven.

— Swe o quê? — Tentou assimilar melhor a pronúncia do nome dele repetindo algumas vezes, até sorrir mais. — Que legal, todos os cordeiros tem nomes difíceis assim? O Lobo nunca me contou que... 

Ele foi parando de falar aos poucos no momento que viu a face de Sweven se transformar em um misto de horror e preocupação, era como se todo o ar descontraído que ele transmitia tivesse sumido ao escutar a palavra "Lobo". O Cordeiro havia esquecido que ele provavelmente sentia medo de lobos, e pensou em alguma forma de tentar acalmar ele e assegurar de que o Lobo era diferente, mostrar que na verdade ele era gentil e calmo, e jamais devoraria cordeiros, carneiros ou ovelhas.

— Está tudo bem, o Lobo é um lobo legal, você vai ver, ele cuidou de mim desde que eu era um filhotinho bem pequenininho, Lobo! — gritou pelo seu protetor para mostrar ao seu possível novo amigo a realidade daquele lugar.

Mas ao contrário do que pensou, Sweven agarrou seu braço com a mão boa com força, desesperado e tenso.

— O que está fazendo? Se ele vir aqui irá nos devorar! — ele choramingou com a voz trêmula, já estava se sentando na cama como se quisesse ir embora dali, e o Cordeiro vendo que ele ainda não tinha se recuperado tentou fazê-lo voltar a se deitar.

— Ele não vai, foi ele quem te salvou! — Sweven começou a se debater quando ouviu barulhos de passos, desesperado para fugir dali enquanto Cordeiro tentava o segurar.

— Não foi! Foi você! Eu só me lembro de te ver antes de desmaiar e não havia lobo algum com você! 

E bem na hora a porta se abriu e os dois paralisaram, ambos por motivos diferentes. O Lobo estava parado na porta e parecia prestes a perguntar o que estava acontecendo quando viu o hóspede acordado, o Cordeiro sorriu feliz esperando que Sweven fosse se aliviar ao ver que Lobo não era um selvagem, mas diferente do que achou, viu ele começar a tremer de uma maneira bizarra, com uma expressão de medo e horror.



Continua...




Comentários

  1. Que história fenomenal, uma baita premissa de universo a ser explorado, varios detalhes que fazem ficar curioso para saber o restante da história, desde o começo ao fim, personagem simples, porem com um baita personalidade, principalmente o lobo que esconde segredos malignos (ser herbívoro só em horas vagas)
    E esse final, abre tanta possibilidade, pq o hóspede parece ate mesmo reconhecer a faceta do lobo, dando indícios de tantas coisas que ele poderia ter feito no passado
    A ambientação também ficou ótimo, eles dois procurando em meio a tempestade a pobre ovelha
    Adorei a história

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obras de mais sucesso