Amor proibido

 


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Enquanto degustava o jantar, lançava alguns olhares furtivos para Melvin, que estava sentado do lado oposto da mesa, tudo que passava em sua cabeça era o quanto ele conseguia ser tão belo, desde que se lembrava, Melvin era alguém que conseguia incitar o amor mais profano em seu coração, sentia que quanto mais o admirava, mais seu peito apertava de amor, refletindo se era realmente real tudo que tinham passado, se era real que alguém como o homem à sua frente existia. Melvin percebeu os olhares não muito furtivos de seu amigo, e o observou de volta, abrindo um sorriso como se o tivesse pegado no flagra.

— Não tem fome? — questionou calmamente, sua personalidade calma combinava com sua aparência, Melvin era alguém bem-dotado de beleza, ter uma conversa com ele era como conversar com um anjo.

— Eu não tenho mais fome de nada desde o incidente. — Ele reparou na forma que Melvin pareceu tenso, como segurou a faca e o garfo firmemente e em seguida soltou, levando a mão até a barriga, se sentiu mal por tocar no assunto, mas sentia que cada dia que passava, as lembranças do dia fatídico corroíam sua mente, talvez pudesse adoecer pensando sobre.

— Foi por pouco. — Não havia sido por pouco.— Cecil, estamos juntos agora, de que importa algo de dias atrás?

— Importa que nunca poderemos ficar juntos totalmente, esse país constantemente faz caças à homens como nós como se fossemos aberrações... Às vezes chego até a me perguntar se realmente não sou uma como dizem.  — Suas mãos começaram a tremer, mais uma vez deslumbrou o rosto de Melvin, não sabia se ele também estava triste ou preocupado, mas segurou sua mão. — Já faz sete dias que você foi atacado.

— Cecil...

— Era apenas para assistirmos a um filme... Se não fosse por mim... Se...

— Chega! — Era a primeira vez que Melvin tinha falado com a voz mais alta que o normal, sua expressão severa. — A culpa que sente é maior que o seu amor?

— Não... — Sua voz saiu trêmula, e ele tentou engolir o nó que se formava em sua garganta. — Eu o amo mais que a minha vida.

— Eu sei, não se lembra da noite que juramos nos amar para sempre, sem nos importarmos com perseguições ou outras pessoas? 

— É claro que eu me lembro. — Ele sorriu um pouco. — Você usava um terno deslumbrante.

— O terno era de meu pai, o branco estava manchado.

— E mesmo assim parecia que tinha sido feito para aquele momento... — ele brincou na esperança de ver o sorriso de Melvin surgir, e quando escutou o som de sua risada, seu coração estremeceu apaixonado.

— Eu vou te amar para sempre, Cecil.

Não podia deixar os julgamentos da época prevalecerem, ele se levantou da cadeira e se aproximou de Melvin lentamente, e aproveitando ar romântico se inclinou e o beijou, aquele era o beijo mais terno que havia experimentado, que até o fez se esquecer do mundo ao seu redor, da noite do acidente, dos olhares de desprezo sobre os dois ou seus pensamentos constantes se poderiam ser realmente felizes, era claro que o país ainda passaria por muitas reformas, e tinha esperança que os Estados Unidos fossem avançar com políticas protetivas, mas tudo aquilo no momento pareceu baboseira, a única coisa que pareceu ser certa era permanecer ao lado de Melvin para sempre. Cecil aprofundou o beijo, a pele de Melvin estava rígida sob a de seu amante, e quando ele se afastou ofegante, o puxou para um abraço apertado, sua mão vagueou com forte intensidade pelo corpo de Melvin, como se precisasse confirmar que ele estava ali.

Todo seu ser ansiava por ficar naquele abraço eternamente, lágrimas começaram a brotar de seus olhos, e segurou mais firmemente o corpo de Melvin contra si, depositou beijos suaves na curva do pescoço e ombro dele e em seguida mordeu. A campainha tocou, e Cecil se afastou relutante, observou Melvin mais uma vez, que continuava com uma expressão plácida e lhe deu um selinho, antes de ir atender a porta. Era apenas sua vizinha, ele não gostava dela, a considerava uma mulher petulante, sempre se metendo em assuntos que não era chamada, mas se esforçou em sorrir.

— Nicole, o que a trouxe aqui essa hora? — Ela o julgou de cima a baixo, e levantou levemente o queixo, um costume que tinha.

— Acabei de voltar de férias, apenas queria confirmar algo.

— O quê?

— Meus pêsames, meu cunhado me contou o que houve com seu amigo, posso não ser tão agradável, mas Melvin era realmente um homem gentil, minha filha era encantada por ele... — Cecil apertou forte a maçaneta, sentiu o sangue ferver dentro de si, escutar ela contar um absurdo daqueles para o homem que possuía um relacionamento amoroso com ele era um enorme desrespeito o qual ele precisava aturar. — Ouvi falar também que...

— Estou exausto, já estou me despedindo. — Ele não deu tempo dela terminar de falar e fechou a porta.

Ele respirou fundo e ficou parado em frente a porta por alguns minutos, após organizar seus pensamentos voltou para onde estava jantando com Melvin, ele já estava cansado, tinha tido um dia dificil, e como um bom namorado, o pegou no colo e levou até seu quarto, colocando-o com delicadeza na cama e logo em seguida deitando ao lado dele.

Enquanto contemplava como sempre sua face, pensava em como odiava sempre escutar as mesmas condolências, todos sempre insistiam que Melvin havia morrido, era claro que seu amante não havia falecido, ele estava vivo e morando secretamente com Cecil, se tivesse morrido jamais continuaria com o corpo tão bem preservado como estava depois de sete dias, se tivesse morrido também não iria conversar ou interagir com seu amado, se ele tivesse realmente morrido, a culpa toda seria de Cecil. Ele não iria suportar viver sabendo que o homem a qual dedicava seu amor tinha morrido por segurar a sua mão apenas por alguns segundos a mais. Como num filme de terror, ele se encolheu ouvindo o som distante que escutara no dia do incidente, um som de tiro. Passou a mão sob a barriga de Melvin, o mesmo lugar que ele havia sido atingido.

Há sete dias, ambos foram assistir à um filme no cinema, Melvin estava um pouco temeroso sobre isso, não pelo filme ser de terror, mas sim pelo medo de serem vistos juntos. No fim, Cecil o convenceu a irem, e assim foi, e durante a sessão, viu a mão de seu amante começar a tremer, se sentiria culpado se ele estivesse com medo de um filme que ele havia escolhido, então cautelosamente segurou a mão dele, não foi por muito tempo, apenas o suficiente para trocarem olhares e soltarem ao escutarem alguém na fileira atrás se levantar, provavelmente para pegar pipoca.

Após o filme terminar, os dois se afastaram do lugar para fumar, dividiram o mesmo isqueiro e depois disso, tudo que Cecil se lembrava foi ter escutado alguém gritar junto de um barulho de tiro, o som ecoou pelo lugar, e quando olhou de onde veio, viu um jovem com uma arma em mãos apontando para eles, era o mesmo que havia ido pegar pipoca no cinema. O jovem estava parado, seus olhos carregavam nojo, desprezo, como também carregavam surpresa e descrença por ter realmente puxado o gatilho, e Cecil paralisou ao se lembrar do grito que veio com o som de tiro, era Melvin no chão gemendo de dor enquanto uma mancha de sangue se espalhava por sua camisa social.

Cecil havia retirado seu paletó de imediato e se jogado ao lado dele, tentando desesperadamente usar a peça de roupa para estancar o sangramento, nunca tinha chorado tanto em sua vida, nem mesmo quando o seu vô morreu, e ao procurar o responsável por tudo, tinha o visto apenas fugir, como se estivesse arrependido, mas de que adiantava se Melvin continuava sangrando, se aqueles olhos estavam perdendo o brilho aos poucos. Naquela noite, ele o levou as pressas para o hospital, e precisou mentir sobre sua relação com ele. Amigos. 

Ele não acreditou quando as enfermeiras contaram que Melvin veio a perecer, ele tinha o visto choramingar de dor o caminho inteiro ao hospital, tinha escutado seu amante chamar por seu nome e repetir que não queria morrer, nem mesmo quando estava no funeral e viu seu corpo acreditou. Melvin ainda estava com o corpo intacto, não tinha como ter falecido, devia apenas estar dormindo e as enfermeiras se confundiram, sabia que ele possuía um sono pesado, então precisou tomar medidas urgentes para evitar que seu corpo fosse enterrado, não diria que roubou, apenas que retirou seu corpo de lá.

Mas sabia que agora Melvin estava mais alegre após ser salvo, podiam morar juntos como sempre tiveram vontade, era irônico até pensar que alguém podia carregar livremente uma arma, porém dois homens não podiam morar juntos como um casal, mas aquilo era passado, Cecil sabia que ambos iriam superar juntos como sempre superaram, e levou a mão até o rosto de Melvin, acariciando sua bochecha. Tudo que passava em sua cabeça era que o amava, não importava que mesmo estando em tempos difíceis haveria pessoas tentando os separar. Eles ficariam juntos para sempre, era só não cometerem o mesmo deslize que haviam cometido. 

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The NY Gazette
2 de Maio de 1962

Caso chocante: Homem esconde por três semanas cadáver de seu amigo!
Nem que a morte os separe — literalmente.

A polícia local de Nova Iorque se deparou hoje com um crime estranho e inquietante. O homem Cecil Carter, de 30 anos, foi apreendido pelas autoridades após a descoberta do corpo de seu amigo Melvin Reeves, 29, em sua casa. E o detalhe mais desconcertante: Reeves estava morto há mais de três semanas.

Segundo relatório da polícia local, vizinhos reclamaram de um odor desagradável vindo do lugar, e quando os agentes arrombaram a porta, descobriram o corpo de Reeves colocado cuidadosamente sobre a cama e vestindo roupas limpas.

Carter foi levado pelos policiais completamente fora de si, alegando aos investigadores que Reeves estava vivo e apenas dormia profundamente, e talvez esse caso tenha ocorrido devido ao desvio de caráter comum do sujeito.

Vizinhos confirmaram que os dois eram amigos inseparáveis, sempre vistos compartilhando a companhia um do outro — e ao que parece Carter quis provar seu ponto. No mês passado, Reeves foi atingido por um disparo à queima-roupa ao sair do cinema com Carter e faleceu ao chegar no hospital. Apesar de Carter ter afirmado que era apenas um "amigo próximo" de Reeves, não pareceu respeitar muito o corpo de seu "companheiro" e roubou do túmulo, deixando a família de Reeves mais desamparada do que se encontrava. Talvez ele tenha confundido amor com taxidermia, pois segundo legistas, o corpo de Reeves demorou para apodrecer e exalar mal cheiro por ter sido embalsamado antes.

Segundo o patologista responsável pela análise do corpo, "na sociedade atual, muitos homens estão perdendo a capacidade de amar e valorizar belas moças e transferem erroneamente esse desejo para amizades inadequadas que desviam do senso comum.", algo que embora alguns questionem, precisamos concordar.

E o Sr. Harpen, advogado de Carter, segue falando na coletiva de imprensa, que o seu cliente não passa de uma vítima apaixonada que não conseguiu superar a perda de seu companheiro, embora sabemos que existam formas melhores de se superar perdas, ao invés de chorar abraçado ao corpo de Reeves. Infelizmente este é mais um dos casos recentes de um desses homens confusos que se entregam a desejos devassos, moços de todas as idades, cuidem para que seu amigo que delira de sentimentalismo não queira repetir a mesma ação com a justificativa de amar demais! 

Carter aguarda ainda pelo julgamento, mas já foi encaminhado a um psiquiatra — melhor teria sido a um padre. 

 

 

Comentários

  1. Bem brutal todo esse enredo, mesmo que ficticio isso ocorre na vida real
    É algo bem, conceito, pelo jeito atual que ama, mas da pra ver o quanto amar alguém pode te deixar maluco

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