Benefícios da morte



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Em uma tarde tão calma, se encontravam dois amigos desfrutando do tempo a toa em suas cadeiras de balanço na varanda, ambos já na terceira idade apenas vendo sua vida passar de maneira monótona e simplória. Nada mudava, exceto os sabores de bolo. Marisol preparava um bolo com sabor diferente a cada tardezinha, acompanhado de um chá ou um café, claro, com o passar do tempo, sua criatividade para preparar novas receitas de bolo foi se esvaindo e a única exceção da vida monótona se foi, embora ela não parecesse ligar muito para isso. Ao contrário de Jorge.

— Veja bem, Sol, eu andei refletindo sobre a vida, e cheguei a conclusão de que a morte traz bem mais benefícios do que achamos. — Jorge começa tomando calmamente seu café, e Marisol olha curiosa para ele.

— Jorginho, lá vem tu com esses papos estranho, o que é agora da morte ter benefícios? Por acaso acreditas em vida pós morte? Que vai para o céu após seu tempo aqui?

— Deixe disso, não acredito que eu iria ao céu.

— Então, tu acha que a vida pós morte é que nem a que os mexicanos acham? Festa e dança todo dia? Ah, quem me dera, talvez seja benéfico mesmo.

— Marisol, não falo de vida pós morte, festa todo dia é ridículo, eu nem ao menos gosto de festa e não danço já faz anos.

— Era o rei da pista, não? Tu e Teresinha dançavam juntinhos a noite inteira, eram os dois de risinhos como se pudessem ser jovens para sempre... Desculpa, não quis citar Teresinha! — Marisol se desculpou arrependida imediatamente, sua voz saindo exaltada, mas Jorge apenas suspirou.

— Já superei a morte de Teresinha, mesmo que ainda me doa lembrar de suas feições tão delicadas ou os passos tão leves, sei que ela está melhor agora, devido aos benefícios da morte.

— Ah é Jorginho, tu me contavas desses tais benefícios, eu boba que viajei, seria esses benefícios então algo mais espiritual?

— Espiritual?

— Sim! Deve achar que vai reencarnar e reencontrar com Teresinha, né? Mas Jorginho, reencarnação é imprevisível, já pensou tu reencarna como mulher e a Teresinha como homem? Ou tanto os dois reencarnam no mesmo gênero...

— Ora, mulher! Também não creio em reencarnação! Vida pra mim só existe uma, qual sentido de renascer em outro corpo para consertar erros da vida passada quando nem sabemos quais erros cometemos?

— Mas homem quanta desinformação, reencarnação não é só isso, tá bom? Tem todo processo de atingir o nirvana e também acumular karma...

— Nirvana já acabou faz tempo, minha filha!

— Não é nirvana da banda daquele loiro que se matou, Jorginho... 

— Quanta indelicadeza pra falar de suicídio, Marisol! Que rude!

— Falei sem pensar, homem doido! Eu queria dizer de reencarnar até se iluminar.

— Impossível, ninguém hoje em dia é puro a ponto de se iluminar que nem Buda ou seja quem. 

Os dois ficaram em silêncio, o sol já ameaçava se pôr, até Marisol de repente se lembrar do assunto que conversavam e tomar uma xícara de café animada.

— Já sei! Quer ficar na terra como espírito vagando por aí? Ai que horror, Jorginho, por Deus, repreenda esse pensamento.

— Quem em sã consciência quer vagar por aí? Eu já tô cansado de ficar na terra desde meus cinquenta anos, imagina ficar aqui eternamente como espectro?

— Tá cansado das tardezinhas de café? — ela questionou cabisbaixa, e por um segundo Jorge repensou em tudo que precisava falar para não magoar coração de sua amiga.

— Nunca vou me cansar das nossas tardezinhas de café e bolo, Marisol... Depois do funeral da Teresinha, não vejo mais direito meus filhos ou netos, mas pelo menos tenho tu, que me ouve sem reclamar...

Marisol observou atentamente Jorge, ele de um instante para outro parecia abatido, nunca falaram tanto de Teresinha como aquele dia, já fazia 1 mês que ela tinha morrido, mas Jorge ainda usava aliança no dedo.

— Minha irmã Carol disse que não entende como sempre tô com tanta vontade de fazer bolo nessa idade, e eu também não sei, nem tenho vontade de levantar da cama, mas sempre me lembro de uma frase da Teresinha.

— Frase? Que frase, mulher?

— "Eu amo tanto fazer bolo que se pudesse iria fazer bolo toda tardezinha pra o Jorginho, se eu morrer você faz isso por mim?" E eu fiquei em choque, ela me contou tão de repente quando tava de cama, e eu só disse "Deixa de frescura mulher, tu vai sair viva dessa, e vai fazer milhares de bolos pra o Jorginho..." — Marisol não conseguiu terminar antes de começar a chorar.

Jorge começou a consolar ela enquanto sentia lágrimas saírem de seus olhos, eles choraram juntos pelo que pareciam intermináveis minutos, nenhum dos dois entendia como uma ferida que julgaram já estar fechada ainda doer tanto quando cutucada um pouco.

— Teresinha, Teresinha... — murmurou Jorge rouco limpando as lágrimas dos olhos.

— Olha Jorginho, não sei que benefícios a morte tem, só sei que eu odeio ela, não ligo para papo de reencarnação ou de vida pós morte, eu só queria tá comendo agora o bolo da Teresinha junto com você... — Quanto mais ela falava, mais ficava difícil limpar as lágrimas, sua voz já saía trêmula. — Se morte tem benefício, pra mim só tem benefício quando a gente morre naturalmente...

— Mas Marisol, vou finalmente te contar agora o benefício que ela tem, é a paz! Teresinha agora tá descansando em paz, não tá mais cheia de máquina pra ajudar ela a viver ou tomando tonelada de remédio, ela não chora mais a noite de dor e nem segura a minha mão porque não suporta mais viver aflita ou em sofrimento por causa da porcaria de um câncer, ela agora tá em paz, tá dormindo pra sempre, a minha verdadeira anjinha.

 

— 𓆩♡𓆪


Comentários

  1. Uma boa história para refletir sobre perda e o luto, de como cada um enfrenta ela do seu jeito, perder alguém que a gente é difícil, mas mais difícil ainda é aceitar esse fato
    Mas mesmo assim entre esses dois velinhos da para ver que eles tentam se apoiar indiretamente e desabafam também indiretamente sobre a perda de uma pessoa querida deles, como eles encontram meios de conversar sobre essa mesma pessoa sem mencionar seu nome
    Mas uma coisa é fato e que é presente nessa história, luto não é só sobre dispedir de uma pessoa querida, mas sim de continuar amando ela

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